Estas
mãos
Olha para estas mãos
de mulher roceira,
esforçadas mãos
cavouqueiras.
Pesadas, de
falanges curtas,
sem trato e sem
carinho.
Ossudas e
grosseiras.
Mãos que jamais
calçaram luvas.
Nunca para elas o
brilho dos anéis.
Minha pequenina
aliança.
Um dia o chamado
heróico emocionante:
- Dei Ouro para o
Bem de São Paulo.
Mãos que varreram e
cozinharam.
Lavaram e estenderam
roupas nos varais.
Pouparam e
remendaram.
Mãos domésticas e
remendonas.
Íntimas da economia,
do arroz e do feijão
da sua casa.
Do tacho de cobre.
Da panela de barro.
Da acha de lenha.
Da cinza da
fornalha.
Que encestavam o
velho barreleiro
e faziam sabão.
Minhas mãos
doceiras...
Jamais ociosas.
Fecundas. Imensas e
ocupadas.
Mãos laboriosas.
Abertas sempre para
dar,
ajudar, unir e
abençoar.
Mãos de semeador...
Afeitas à
sementeira do trabalho.
Minhas mãos raízes
procurando a terra.
Semeando sempre.
Jamais para elas
os júbilos da
colheita.
Mãos tenazes e
obtusas,
feridas na remoção
de pedras e tropeços,
quebrando as
arestas da vida.
Mãos alavancas
na escava de
construções inconclusas.
Mãos pequenas e
curtas de mulher
que nunca encontrou
nada na vida.
Caminheira de uma
longa estrada.
Sempre a caminhar.
Sozinha a procurar
o ângulo prometido,
a pedra rejeitada.
Cora Coralina
(1889-1985)